Enquanto novos medicamentos, cirurgias de alta tecnologia e terapias personalizadas fazem manchetes, há uma mudança discreta a acontecer em segundo plano: em todo o mundo, o número de casos de cancro está a aumentar de forma acentuada. Equipas internacionais de investigação estimam que, até 2050, o total anual de mortes por cancro poderá quase duplicar - sobretudo em regiões que, já hoje, têm poucas hipóteses de acesso a tratamento eficaz.
Cancro hoje: 20 milhões de novos casos, quase 10 milhões de mortes por ano
Neste momento, o cancro já está entre os maiores desafios de saúde do nosso tempo. De acordo com dados recentes, em 2022 cerca de 20 milhões de pessoas em todo o mundo receberam um diagnóstico de cancro. Dessas, aproximadamente 9,7 milhões morreram - ou seja, quase uma em cada duas pessoas afetadas.
A Organização Mundial da Saúde considera que, ao longo da vida, cerca de uma em cada cinco pessoas irá desenvolver cancro. E perto de uma em cada nove morrerá devido à doença. Não se trata de um risco distante: é uma ameaça que, mais cedo ou mais tarde, atinge quase todas as famílias.
Atualmente, destacam-se três tipos de cancro particularmente frequentes:
- Cancro do pulmão - a forma mais letal à escala global, fortemente associada ao tabaco e à poluição do ar
- Cancro da mama - sobretudo em mulheres, embora os homens também possam ser afetados
- Cancro colorrectal - estreitamente ligado à alimentação, à atividade física e ao excesso de peso
O cancro do pulmão mantém-se, no mundo, como a principal causa de morte por cancro. Um fator determinante é que o consumo de tabaco continua muito elevado em vários países asiáticos, e a poluição atmosférica tem um peso cada vez maior.
"Os números do cancro não sobem apenas porque as pessoas envelhecem - os tumores estão a atingir cada vez mais adultos jovens, em pleno período de vida profissional e familiar."
Investigadores têm observado que um número crescente de pessoas adoece já nos trinta ou nos quarenta anos. Isso interrompe percursos profissionais, desestrutura famílias e redes sociais e gera um impacto pesado nas sociedades - tanto no plano económico como no emocional.
Olhar em frente: até 30,5 milhões de novos casos de cancro em 2050
Uma ampla análise internacional, baseada em três décadas de dados oncológicos, aponta para uma tendência clara: se nada mudar, os valores irão subir de forma marcada nos próximos 25 anos.
A projeção para 2050 indica:
- Até 30,5 milhões de novos diagnósticos de cancro por ano (2023: cerca de 18,5 milhões)
- Cerca de 18,6 milhões de mortes por cancro por ano - quase o dobro do que se observa hoje
Estes cálculos foram apresentados num estudo do especialista em saúde pública Vikram Niranjan, publicado na revista científica "The Lancet" e analisado por portais de ciência. A mensagem é direta: mesmo com terapias mais eficazes, o avanço não chega se o número de novos casos continuar a crescer a este ritmo.
Riscos evitáveis: quase metade das mortes por cancro não é inevitável
O aspeto mais preocupante é que uma fatia significativa das mortes está ligada a fatores que podem ser modificados. Para 2023, as equipas de investigação estimam que cerca de 42% das mortes por cancro se deveram a causas evitáveis, sobretudo:
- tabagismo e fumo passivo
- consumo elevado de álcool
- alimentação pouco saudável e muito baseada em produtos ultraprocessados
- excesso de peso e falta de atividade física
- poluição do ar e partículas finas
- exposição a substâncias cancerígenas no local de trabalho
O problema é que muitos destes riscos, a nível global, tendem mais a aumentar do que a diminuir. O crescimento é particularmente rápido em países com economias em expansão, onde o estilo de vida e os padrões alimentares mudam de forma intensa - muitas vezes no sentido de mais fast food, trabalho sedentário e maior consumo de tabaco e álcool.
"A maior parte desta vaga de cancro não é um capricho da natureza, mas sim o resultado do estilo de vida, da carga ambiental e de falhas políticas."
Um mundo desigual: o local onde se vive influencia a sobrevivência
As projeções evidenciam diferenças profundas entre países ricos e países pobres. Em Estados com baixo nível de desenvolvimento, o número de diagnósticos de cancro poderá aumentar até 2050 em 142%. Nesses locais, é frequente faltarem programas de deteção precoce, médicos especialistas, terapias modernas e até medicamentos essenciais.
Um exemplo que ilustra bem este desequilíbrio é o cancro da mama em mulheres.
| Região | Mulheres com cancro da mama ao longo da vida | Mulheres que morrem devido à doença |
|---|---|---|
| Países com rendimento muito baixo | 1 em 27 | 1 em 48 |
| Países altamente desenvolvidos | 1 em 12 | 1 em 71 |
Em países mais abastados, embora mais mulheres adoeçam, a probabilidade de sobrevivência é substancialmente superior. Entre as razões contam-se programas regulares de rastreio, técnicas cirúrgicas mais avançadas, radioterapia e terapêutica medicamentosa modernas, bem como centros oncológicos especializados.
Já em regiões mais pobres, o cancro da mama é muitas vezes detetado demasiado tarde, quando o tumor já metastizou. Além disso, custos de deslocação, taxas de tratamento e a ausência de seguro de saúde impedem muitas pessoas de procurar ou manter cuidados.
Falhas na oferta: em muitos locais, tratar cancro é um luxo
Um inquérito internacional a 115 países mostra a dimensão das lacunas nos sistemas de saúde:
- Apenas cerca de 39% dos países financiam um tratamento oncológico básico através do seguro de saúde nacional.
- Menos de um terço garante acesso amplo a cuidados paliativos, incluindo controlo da dor e acompanhamento no fim de vida.
- A radioterapia está disponível quatro vezes mais frequentemente em países ricos do que em países de baixo ou médio rendimento.
- Transplantes de células estaminais - por exemplo em cancros do sangue - são comparticipados cerca de doze vezes mais em países com maior riqueza.
"O facto de uma pessoa com diagnóstico de cancro sobreviver depende, demasiadas vezes, do passaporte, do rendimento e do código postal."
Esta desigualdade faz com que o aumento esperado de casos em regiões mais pobres se traduza em particularmente muitas mortes. Mesmo tumores com boas hipóteses de tratamento acabam, nesses contextos, por ser fatais.
O que seria preciso agora: prevenir, detetar cedo, tratar com justiça
Existe um consenso alargado entre especialistas sobre as medidas capazes de inverter a tendência. São estratégias conhecidas, algumas de baixo custo, mas que não têm sido aplicadas com a determinação política necessária. Entre elas:
- controlo rigoroso do tabaco (proibição de publicidade, aumento de impostos, restrições ao fumo)
- criação de condições para uma alimentação mais saudável, como melhor rotulagem e menos açúcar e sal em produtos processados
- programas contra o sedentarismo e o excesso de peso, sobretudo em crianças
- redução da poluição do ar e limites mais exigentes para poluentes
- regras claras para substâncias cancerígenas no trabalho e reforço da proteção laboral
- programas de rastreio abrangentes, gratuitos ou de baixo custo, para os tipos de cancro mais comuns
Em particular, a combinação de prevenção com deteção precoce tem o maior impacto: reduz o número de novos casos e permite identificar os tumores que surgem numa fase tratável. Isso alivia doentes, famílias e também os próprios sistemas de saúde.
O que significa isto para a Alemanha, a Áustria e a Suíça?
Nos países de língua alemã, os sistemas de saúde estão, em geral, bem posicionados numa comparação internacional. Existem programas consolidados de deteção precoce do cancro da mama, do cancro colorrectal e do cancro do colo do útero, centros oncológicos modernos e acesso a novos medicamentos. Ainda assim, as tendências mostram que também aqui o número de casos aumenta - em especial devido ao envelhecimento da população e a estilos de vida menos saudáveis.
Alguns sinais merecem atenção particular:
- subida das taxas de cancro colorrectal em adultos mais jovens
- números elevados de excesso de peso e obesidade, já na infância
- consumo de álcool persistentemente alto em partes da população
- aumento da poluição do ar em áreas metropolitanas
Para quem quer agir a nível individual, há várias alavancas possíveis: fumar menos ou deixar de fumar, limitar o álcool, mexer-se mais, cozinhar com alimentos frescos e participar nos rastreios. São recomendações simples, mas com um efeito comprovado na redução do risco de cancro.
Porque é que os próximos 25 anos são decisivos
Os investigadores falam numa janela de oportunidade: nas próximas duas a três décadas, ficará decidido se o mundo entra numa crise prolongada de cancro ou se consegue travar a tendência. O tumor não é apenas um fenómeno médico; reflete desigualdades globais e escolhas políticas.
Quanto mais tempo os países demorarem a implementar medidas de proteção, mais caro será no final: mais doentes, mais sequelas de longo prazo, custos mais elevados com medicamentos e internamentos, e perdas significativas no trabalho. Pelo contrário, a prevenção e o tratamento precoce são relativamente acessíveis - exigem coragem política, mas evitam sofrimento e despesa.
Para doentes e familiares, no fim, o essencial é sobretudo isto: diagnóstico atempado e acesso a boa terapêutica. A projeção atual mostra o quão longe o mundo ainda está desse objetivo - e quanto poderia mudar se a saúde fosse tratada, de facto, como uma responsabilidade global.
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