“Vladimir Vladimirovich, o povo tem medo de si. Os governadores têm medo de si. Por isso, mentem-lhe.” Foi com estas palavras que começou o que muitos consideram o discurso mais viral dos últimos anos na Rússia, endereçado diretamente ao Presidente Putin. A mensagem não partiu de um dirigente da oposição, mas de Viktoria Bonia, influenciadora digital com treze milhões de seguidores e ex-participante do “Dom-2”, um formato semelhante ao “Big Brother”.
Divulgado no Instagram, o vídeo já ultrapassou 30 milhões de visualizações e passou a cristalizar um desconforto social que há muito não se via no país. Depois de quatro anos de guerra e com o custo de vida a subir a pique, os bloqueios à Internet acabaram por ser a gota de água.
A queda da popularidade do chefe de Estado abriu espaço para que os partidos da oposição sistémica - normalmente obedientes - se agitassem, a cinco meses das legislativas, que terão de ocorrer até 20 de setembro. As limitações às comunicações tornaram visível uma clivagem entre diferentes centros de poder do Estado russo. De um lado, os serviços secretos convenceram Putin de que era indispensável cortar comunicações; do outro, a esfera política próxima do Presidente viu as redes sociais, sobretudo o Telegram, como um instrumento crucial para moldar a opinião pública.
“Essa senhora do Mónaco”
O vídeo de Bonia surgiu como o sinal mais recente de uma sucessão de acontecimentos pouco habituais na Rússia. Antes, a imprensa alinhada com o regime publicara editoriais a censurar abusos de autoridade dos serviços secretos - o FSB, sucessor do antigo KGB - invocando a segurança como justificação. Logo depois, apareceu uma vaga de chamadas para manifestações, travadas com argumentos tão frágeis como as medidas sanitárias contra a covid. Os organizadores acabaram detidos preventivamente.
A intervenção da influenciadora digital gerou tanta agitação que o Kremlin se viu forçado a reagir publicamente. De modo inesperado, o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, reconheceu as críticas e garantiu que há trabalho em curso para resolver os problemas. Essa posição inflamou os sectores mais leais. Alguns propagandistas apelidaram Bonia de “prostituta do Dubai” (apesar de viver no Mónaco) e acusaram-na de agir ao serviço de interesses ocidentais.
A controvérsia chegou ao Parlamento. O líder comunista, Guenadi Ziuganov, manifestou indignação por ver o Kremlin acolher exigências de uma celebridade enquanto ignora as mesmas queixas quando vêm do seu partido. “Fizemos o possível por apoiar Putin, a sua estratégia, as suas políticas. Agora dão ouvidos a essa senhora do Mónaco?”, bradou esta semana, da tribuna.
Sondagens são “alerta precoce”
Em canais de oposição discute-se se o aparecimento de Bonia poderá, afinal, fazer parte de uma operação do próprio Kremlin, associada ao antigo primeiro-ministro Sergei Kirienko, atualmente chefe de gabinete do Kremlin. A desconfiança aumentou depois de a influenciadora ter divulgado um novo vídeo, em lágrimas, a agradecer a Putin por ter atendido às suas súplicas.
Seja ou não uma manobra vinda da presidência, Kirienko tem razões para inquietação perante a perda de apoio a Putin. De acordo com a consultora pública VTsIOM, a aprovação do Presidente russo desceu quase dez pontos percentuais desde janeiro, de 75% para 66%. Trata-se do nível mais baixo desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, em 2022. Também o Rússia Unida, partido de Putin, se aproxima dos seus piores resultados em período pré-eleitoral. Apesar de as autoridades terem definido como meta 60% dos votos, as sondagens apontam para 27%, perto do mínimo histórico.
O reverso desta tendência está no crescimento dos partidos da oposição sistémica, que aproveitaram o discurso contra as restrições no ciberespaço. O jornalista Andrei Pertsev escreve no “Riddle”, órgão de comunicação russo no exílio, que o mais provável é que as sondagens funcionem como “sistema de alerta precoce” para sinalizar “discretamente” aos dirigentes a “impopularidade do rumo atual”.
Choque entre poderes
O sociólogo Lev Gudkov explica ao Expresso que o Presidente “nem sequer está a par” dos estudos de opinião, porque “não confia nos respetivos dados, apenas nos dos inquéritos fechados do FSB, que lhe mostram só o que quer ver”. Segundo este especialista, “O FSB desempenha um papel decisivo nisto, porque de certa forma controla Putin, proporcionando-lhe uma imagem da realidade ou outra”. A influência dos serviços secretos sobre o topo do Kremlin ajuda a compreender por que razão o Presidente aprovou o bloqueio da conectividade móvel.
O jornal russo “The Bell” sustenta que por trás dessas medidas está o Segundo Serviço do FSB, descrito como “a unidade mais sinistra dos serviços secretos”, associada ao envenenamento de Alexei Navalny, falecido em 2024. O responsável que terá influenciado Putin é o coronel-general Alexei Sedov, chefe do Segundo Serviço, que foi agente do KGB em Leninegrado (atual São Petersburgo) nos anos 80, tal como Putin, e que, tal como ele, é septuagenário e pouco dado à Internet. Sabe-se que o chefe de Estado russo não usa telefone inteligente, computador nem redes sociais.
A publicação “Vlast” refere que o reforço do controlo sobre a Internet russa provocou “graves discórdias na elite”. Para os funcionários do bloco político do Kremlin, a ação dos serviços secretos foi sentida como um ataque, num momento em que o FSB consegue impor a sua visão. “O caminho para o controlo digital total está a fazer-se sem a sua aprovação e contra os seus desejos”, escreve a analista Tatiana Stanovaya num artigo para o Centro Carnegie Eurásia.
Na sua perspetiva, “não só a sociedade, mas também certos sectores do Governo, começam a sentir-se cada vez mais ameaçados” pelo FSB. E conclui: “A própria resistência da elite provoca uma resposta ainda mais dura das forças de segurança”.
Um novo 1917?
O desconcerto estende-se às elites empresariais. As empresas tecnológicas são pressionadas a liderar o combate às VPN, aplicações que permitem contornar a censura digital, sob ameaça de sanções. Até o chefe da confederação patronal que reúne os oligarcas russos disse a Putin que as limitações vieram complicar a vida a quem faz negócios e pediu soluções. O Presidente manteve-se impassível.
No Ocidente, analistas interpretaram estes sinais de tensão social como indícios de fragilidade do regime. Já no Parlamento russo, chegou a surgir a tentação de explorar o fantasma do tumulto social: o líder comunista avisou o Presidente de que, sem medidas urgentes para travar a deterioração das condições de vida, o outono poderá trazer uma revolução como a de 1917. “E não temos direito a repetir isso”, rematou Ziuganov.
Gudkov, porém, afasta o cenário de alarme. “Isto não vai suscitar uma onda de protestos, porque a maioria das pessoas é leal ao Governo. A irritação não é canalizada para os altos dirigentes”, afirma.
Ainda assim, nada indica que o círculo político de Putin consiga desviá-lo do caminho definido. O Presidente mostra-se alheio às críticas. “Isto tem que ver com esforços para prevenir ataques terroristas, e é claro que garantir a segurança das pessoas será sempre a prioridade máxima”, declarou na quinta-feira passada. Em linguagem do Kremlin, a mensagem é clara: o rumo está traçado, os serviços secretos vão avançar com a sua agenda e o mais prudente, para todos, será adaptar-se à nova realidade.
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