As muitas máscaras de Dylan e o amor
Dylan activista, Dylan profeta, Dylan tradicionalista, Dylan eléctrico: multiplicam-se as versões do maior compositor de canções vivo. Já a figura do Dylan amoroso é menos evocada, apesar de “Blonde on Blonde” (1966) combinar de forma extraordinária sarcasmo, desejo, confiança, devoção, cansaço e outras contradições (‘Visions of Johanna’, ‘I Want You’, ‘Just Like a Woman’, ‘Sad Eyed Lady of the Lowlands’). E o decisivo “Blood on the Tracks” (1975) quase não encontra rival como “álbum de divórcio”, ainda mais do que como disco de simples desamor. Nestas matérias, como em tantas outras, Dylan tanto avança de frente como fala por via indirecta - recua um passo para não perder o equilíbrio.
‘Most of the Time’ em “Oh Mercy” (1989)
Um exemplo disso é ‘Most of the Time’, incluída em “Oh Mercy”, de 1989, talvez o seu melhor álbum da meia-idade. O tom - e também o som - é sereno, contemplativo, uma espécie de “emoção recordada na tranquilidade”, como pretendia Wordsworth. Não fosse o fulcro da canção, precisamente, a recusa dessa tranquilidade.
Como voltará a fazer décadas depois numa canção sobre a morte, ‘Not Dark Yet’, em que a afirmação “It’s not dark yet” é imediatamente minada por “But it’s getting there”, também ‘Most of the Time’ depende de um qualificativo, de uma modulação, que anuncia um boicote deliberado aos consolos do “já passou” e do “já esqueci”.
“Na maior parte do tempo”, repete ele: vejo com nitidez, mantenho o foco, estou com os pés assentes, sigo seguro, reconheço os sinais, “I can handle whatever I stumble upon/ I don’t even notice she’s gone/ Most of the time”. O cantor tenta convencer-nos - ou convencer-se - de que a vida ficou calma porque ela partiu e ele já não pensa nela “o mais das vezes”. O que, por definição, implica que, por vezes, pensa.
Tranquilidade como táctica
Grande parte do cânone dylaniano ocupa-se dos tempos que mudam, de ‘The Times They Are A-Changin’ a ‘Things Have Changed’: o entusiasmo do jovem e o quase-cinismo do velho. Mas cedo aprendeu a escrever também sobre aquilo que desejávamos ver transformado e, no entanto, permanece intacto.
Assim, na canção de 89, o bardo insiste: a maior parte do tempo, tudo corre bem, tudo se suporta, sobrevivemos, continuamos, “And I don’t even think about her/ Most of the time”. E a enumeração progride até ao contraste entre a abstracção de “Humanidade” e a materialidade de uns “lábios”: “I can smile in the face of mankind/ Don’t even remember what her lips felt like on mine/ Most of the time”.
Se há em ‘Most of the Time’ uma reverência a Wordsworth, o dispositivo é muito mais humilde: recorda-se a emoção na tranquilidade porque a emoção já está contida na própria tranquilidade - logo, a tranquilidade funciona como estratégia e não como verdade.
Basta olhar para a impecável desconversa dos versos em que o “eu” assegura que não a traz na cabeça, que nem a reconheceria se a encontrasse, que estão tão distantes um do outro que talvez nunca tenham estado juntos. Trata-se da ilusão do passado, ou do passado enquanto ilusão?
Memória, sombra e cicatriz
Pouco interessa se a lembrança é amorosa ou se aponta para outro objecto ou circunstância. Aquilo que a memória não apagou continua a viver. E o que parece apagado permanece, ainda assim, numa zona de sombra.
Dylan afasta a hipótese de uma resolução total e definitiva. Também ele procura converter o sofrimento patológico em sofrimento normal. Daí declarar-se “mais ou menos satisfeito” - diabo de fórmula - e garantir que não se engana a si próprio nem teme os sentimentos.
Quanto a ela - ou à idade dele, a esse tempo - e quanto às fantasias, às mágoas, às humilhações, ele convive com tudo como se convive com uma cicatriz hipertrófica. Convive porque sabe que isso está vivo, vivo como os mortos estão vivos. É inútil desejar que tudo o que terminou continue a existir. Toda a gente o sabe. Na maior parte do tempo.
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