Quando os dias começam a alongar, muitos jardineiros amadores sentem logo vontade de pôr as mãos na terra. O entusiasmo, porém, costuma esmorecer ao olhar para uma relva dura como pedra. Afinal, quem é que quer passar horas a lutar com uma forquilha de cavar para acabar com dores nas costas em vez de rabanetes? Uma técnica esperta da “jardinagem sem escavar” resolve precisamente esse problema - e ainda aproveita um material que normalmente iria para o ecoponto do papel.
Porque é que o cartão substitui a pá
A lógica é simples e, ao mesmo tempo, eficaz: em vez de cortar a camada de relva à força, tapa-se a área. O cartão canelado castanho funciona como uma tampa. Retira luz à relva, enfraquece as raízes das gramíneas e, ao mesmo tempo, deixa a vida do solo continuar a fazer o seu trabalho sem ser perturbada.
Sob uma camada com várias folhas de cartão castanho e material orgânico, forma-se em poucas semanas um novo canteiro - sem um único golpe de pá.
Para resultar, as placas de cartão devem ficar sobrepostas, idealmente, 15 a 20 centímetros. Assim garante-se que não passa qualquer raio de luz. Ao fim de cerca de três a seis semanas, as ervas e os infestantes existentes ficam simplesmente sem energia: tentam alcançar a superfície, não conseguem atravessar a barreira e acabam por morrer.
Ao mesmo tempo, o próprio cartão entra em acção. Com a chuva ou com a rega, amolece, adapta-se ao terreno e vai-se decompondo gradualmente. Minhocas e outros organismos do solo alimentam-se da celulose e misturam restos de relva morta, cartão e terra. O resultado é um solo que se solta por si, fica mais permeável e ganha nutrientes.
Ensaios em horticultura indicam que uma cobertura contínua com cartão consegue travar quase todos os infestantes. A superfície mantém-se protegida, a humidade conserva-se melhor, não se forma crosta - e tudo isto sem herbicidas.
Que cartão serve - e qual deve evitar
Nem toda a caixa que se acumula à porta de casa é adequada. O que interessa é o que o cartão contém e o que foi aplicado na sua superfície.
- Usar apenas cartão canelado castanho, simples.
- Evitar cartão com película, plastificação ou acabamento brilhante.
- Evitar grandes impressões a cores; quanto menos tinta, melhor.
- Retirar bem fita-cola, etiquetas e agrafos metálicos.
A cobertura deve ter duas a três camadas de cartão, num total de cerca de cinco a oito milímetros de espessura. Assim cria-se uma barreira sólida à luz, mas que continua a deixar passar água. Antes de colocar o cartão, a relva deve ser cortada muito rente, para não ficarem hastes longas a empurrar a cobertura.
Passo a passo para um canteiro de legumes sem escavar
No terreno, o processo é surpreendentemente directo e muito menos exigente do que cavar à moda antiga. Muitos jardineiros com costas sensíveis recorrem a esta abordagem precisamente para conseguirem aumentar a área de cultivo.
A preparação
- Escolher a zona e retirar obstáculos como pedras grandes, ramos grossos ou lixo.
- Cortar a relva o mais curto possível; deixar o corte no local ou espalhá-lo numa camada fina.
- Rasgar ou cortar o cartão em peças manejáveis, para cobrir bem toda a área.
A cobertura
- Dispor as placas de cartão bem encostadas, com pelo menos 20 centímetros de sobreposição em cada união.
- Regar generosamente até o cartão ficar visivelmente encharcado e assentar plano no solo.
- Espalhar por cima cinco a dez centímetros de composto bem maduro, estrume bem curtido ou mulch vegetal.
Como mulch, pode usar-se, por exemplo:
- composto maduro do jardim
- estrume de curral bem curtido
- feno ou palha
- folhas de árvores (de preferência misturadas)
- relva seca em camadas finas
Esta camada superior cumpre duas funções ao mesmo tempo: protege o cartão para não secar depressa nem se degradar ao sol e fornece os nutrientes de que, mais tarde, vão depender os legumes e as bagas.
Quando chega o momento certo para plantar
Quem começar no fim de Março ou no início de Abril, regra geral consegue plantar entre o fim de Abril e meados de Maio. O estado do tempo também conta: em primaveras frias e chuvosas, o solo pode demorar um pouco mais até “entrar em funcionamento”.
Para saber se a área está pronta, basta um teste simples com o dedo:
- O cartão rasga ou esfarela quando se pressiona com o dedo ou com um pau de plantação.
- A relva por baixo está amarelada a castanha e já não cresce.
- A camada de composto por cima mantém-se fofa e ligeiramente húmida.
Quando estes sinais aparecem, pode avançar. Para plantas jovens, abre-se um pequeno buraco na camada de composto, faz-se um corte em cruz no cartão por baixo e empurra-se o torrão pela abertura até ao solo já mais solto.
Que hortícolas são mais indicadas
No arranque, o que tende a resultar melhor são plantas robustas já desenvolvidas. Sementeiras directas de sementes muito finas podem tropeçar em restos de cartão e convém deixá-las para mais tarde.
Tomates, curgetes e abóboras são as estrelas do canteiro de cartão “preguiçoso” - adoram um solo solto e rico em nutrientes.
Entre as opções que costumam funcionar muito bem estão:
- tomates
- curgetes e outras abóboras
- couves como brócolos ou couve branca
- alfaces de todo o tipo
- morangos
- batatas (basta colocá-las na camada superior e voltar a cobrir)
Culturas de semente miúda, como cenouras, pastinacas ou raiz de salsa, devem esperar até o cartão quase desaparecer por completo. Nessa altura, já dá para abrir um rego de sementeira fino na camada superior, permitindo que as sementes germinem sem obstáculos.
Vantagens para as costas, para o solo e para o ambiente
A vantagem mais óbvia é a redução do trabalho pesado: grande parte do esforço com ferramentas de escavação deixa de ser necessário. Para quem tem problemas de discos intervertebrais ou articulações, isto pode tornar a horta muito mais confortável.
Além disso, o ecossistema do solo agradece. As minhocas não são incomodadas e as redes de fungos e comunidades bacterianas não são constantemente desfeitas. O que se obtém é um solo estável, rico em húmus, com capacidade de reter água e menos propenso a secar rapidamente em períodos de calor.
Há ainda outro efeito prático: menos monda. Com a superfície sempre coberta, germinam muito menos infestantes e, os poucos que aparecem, normalmente saem com facilidade, quase de um puxão.
Erros comuns e como evitá-los
A técnica é tolerante, mas há alguns deslizes frequentes:
- Cartão demasiado fino: se entrar luz, a relva e as raízes acabam por atravessar.
- Cartão de embalagens baratas com plástico: restos de película não apodrecem e contaminam o solo.
- Pouco material orgânico por cima: o solo seca mais depressa e faltam nutrientes.
- Falta de paciência: plantar cedo demais faz com que o pau de plantação bata num cartão ainda rijo e as raízes sofram.
Tendo estes pontos em conta, é possível manter a área durante vários anos no mesmo sistema: todos os anos entra novo material de cobertura, os restos do ano anterior continuam a decompor-se e o canteiro vai ficando cada vez mais solto e fértil.
Como combinar o canteiro de cartão com outras técnicas
A abordagem torna-se ainda mais interessante quando se junta a outras ideias da permacultura. A consociação - isto é, cultivar diferentes espécies lado a lado de forma planeada - encaixa muito bem, porque o solo permanece coberto e activo. Plantas de raiz profunda, como pastinacas ou salsifis, ajudam ainda a soltar o subsolo assim que o cartão estiver quase desaparecido.
Quem pensa fazer um canteiro elevado também pode começar com uma camada de cartão. Colocada no fundo, sobre a relva, impede que a erva e as raízes invadam o canteiro e, com o tempo, integra-se naturalmente na decomposição. Mesmo em solos argilosos e pesados, esta base permite construir uma estrutura funcional sem passar a primavera inteira a cavar.
Para muitos jardineiros amadores, um simples cartão de envio acaba por ser a chave para começar a estação com menos esforço: menos suor, menos dores e, ainda assim, muitos legumes da própria horta - exactamente onde antes havia relva.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário