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Bosch quer investir em Portugal mais €85 milhões até ao fim do ano

Grupo de profissionais em reunião com robô industrial numa sala moderna com vista panorâmica.

Quando uma multinacional decide onde pôr dinheiro, o mapa não se faz só com custos: pesa a capacidade de executar, exportar e manter projetos a longo prazo. É nesse equilíbrio que a Bosch volta a apontar para Portugal, com a intenção de reforçar o investimento até ao fim do ano.

A empresa quer aplicar mais €85 milhões no país, com o foco na mobilidade elétrica, em Braga, e nas bombas de calor, em Aveiro. “Replicaremos no mínimo os €85 milhões do ano passado”, diz ao Expresso Javier González Pareja, presidente da multinacional alemã para Portugal e Espanha.

Entre “talento, competitividade, estabilidade e capacidade exportadora”, o quinto maior exportador nacional continua a considerar Portugal “um local atrativo para investir” e a manter “um forte compromisso com o país, onde mantém a aposta no desenvolvimento e produção de tecnologias-chave”.

Foi assim que, num “contexto de reestruturação e realinhamento estratégico do grupo”, surgiram novas oportunidades em Aveiro - para onde a Bosch canalizou o projeto de expansão da produção de bombas de calor, inicialmente pensado para a Polónia - e em Braga, para onde transferiu parte da produção de radares que estava na Hungria, em paralelo com o investimento no novo negócio de desenvolvimento de soluções inovadoras para tecnologias avançadas de bicicletas elétricas.

Em Lisboa, o polo de serviços da multinacional também tem vindo a ganhar competências em várias especialidades: faz a administração de recursos humanos do grupo na Europa Ocidental, faz desenvolvimento de software e, “num negócio menos conhecido, faz teleassistência a elevadores, o que significa que em caso de avaria na Escandinávia, a ligação para resolver o problema é feita para Lisboa”, conta. E assim, enquanto a Bosch reduziu em 1% o número de trabalhadores no mundo, para fechar 2025 com 412 mil, o número de empregados da multinacional em Portugal cresceu 3%, para 5900.

Os trunfos de Portugal

“A dedicação, a especialização e o excelente desempenho dos nossos colaboradores têm sido determinantes para atrair novos negócios”, afirma Javier Pareja, justificando também a avaliação positiva das parcerias com as universidades do Minho, Porto e Aveiro e com o Instituto Superior Técnico, admitindo “abertura para mais”. “Não está nada previsto, mas novos projetos podem trazer novas parcerias”, adianta, referindo que a nova área de negócio de Braga, centrada no desenvolvimento de soluções inovadoras para bicicletas elétricas, “pode trazer mais uma parceria com a Universidade do Minho”.

Para Portugal continuar a captar investimento estrangeiro no futuro, será importante “focar-se mais nas soluções do que nos problemas”, defende. Depois, “há a palavra desenrascar, que adoro, mas que é um pau de dois bicos. Embora seja bom saber improvisar, todos poderiam beneficiar de mais planificação”. E há a questão de Espanha: “É fundamental Portugal pensar grande, perder o medo de Espanha, ver as relações económicas entre os dois países como uma oportunidade real e perceber que a colaboração pode trazer sinergias e benefícios, até porque em comparação com outros mercados, a Península Ibérica, mesmo unida, continua a ser pequena”, sustenta.

Javier Pareja adora a palavra ‘desenrascar’, mas diz que “todos poderiam beneficiar de mais planificação”

Outro ponto crítico é o das remunerações, com Javier González Pareja a valorizar as “medidas fiscais de apoio para atrair o talento, que é escasso”, bem como os países que dão incentivos como a descida do IRS e apoios à compra de habitação a jovens e a determinadas profissões.

50 nacionalidades

A Bosch sente falta de talento para contratar em Portugal? “Temos conseguido preencher as nossas vagas e dar continuidade aos projetos. A empresa lida com o teletrabalho de forma flexível, o que permite aceder a um mercado de trabalho mais vasto, na Madeira, nos Açores, em Trás-os-Montes”, explica.

A trabalhar com 50 nacionalidades, o gestor acredita que “nos próximos anos os salários portugueses vão aproximar-se mais do resto da Europa Ocidental, mas vão continuar longe do nível da Alemanha, onde o valor pode estar 60% ou 70% acima. Ainda assim, há trabalhadores especializados do norte da Europa que querem vir para cá, atraídos pela qualidade de vida”, acrescenta.

Em Portugal desde 1911, a Bosch está presente em Braga, Ovar, Aveiro e Lisboa nas áreas das soluções de mobilidade, energia, tecnologia de edifícios, serviços e bens de equipamento. E Javier Pareja destaca os centros de competência criados em Braga (onde está a maior fábrica do grupo na Península Ibérica e uma das maiores da Europa), Ovar e Aveiro, aos quais se poderá juntar em breve mais um em Lisboa. A 10 anos, vê “a Bosch com maior presença industrial e nos serviços e mais engenheiros no país”.

Para já, o gestor confia num crescimento em 2026 em Portugal “ligeiramente superior ao da multinacional”, estimado em 2% a 5% (em 2025 o grupo teve receitas de €91 mil milhões, 0,7% acima do ano anterior). A fasquia de crescimento médio anual do grupo no longo prazo está fixada nos 8% e assenta numa estratégia que combina 5% de crescimento orgânico e 3% por aquisições, “o que significa que podemos comprar empresas cá”, observa. E se o crescimento passa por inovação e patentes (o grupo registou 6300 em 2025), Portugal - onde emprega 1400 engenheiros de Investigação e Desenvolvimento - também “dá o seu contributo, somando já mais de 80”.

Quanto ao conflito do Médio Oriente, para a Bosch a zona mais afetada pela quebra nas cadeias de fornecimento “é a Ásia e países como a Índia, onde temos 20 mil pessoas, ou a China”. A diversificação dos locais de produção é uma das medidas para reduzir potenciais problemas.

TRÊS PERGUNTAS A

Javier Pareja

Presidente da Bosch para Portugal e Espanha

Na Bosch Braga, o lay-off de 2500 trabalhadores anunciado em novembro último para durar seis meses por falta de chips, devido aos problemas que envolveram a China, os Países Baixos e as exportações da Nexperia, durou menos de um mês. Como ultrapassaram esses constrangimentos?

Era um problema também político que levou a China a proibir as exportações de chips para fora do país. Como nós temos mais de 60 mil pessoas na China, pedimos aos nossos colegas para comprarem os chips e depois enviavam-nos para Braga e para as outras fábricas do grupo, que tem 240 fábricas em todo o mundo, 130 das quais na área da mobilidade.

Isso levou a mudar alguma coisa na estratégia da empresa?

Esta foi a resposta imediata. Mas a resposta também passa por diversificar fontes de fornecimento para termos alternativas. Não há muitos fornecedores de chips, mas conseguimos isso. E também passa por produção própria. O maior investimento da Bosch foi uma fábrica de semicondutores em Dresden, que alguns veem como o Silicon Valley da Europa. Temos uma fábrica em Estugarda e comprámos outra nos EUA. No entanto, o mundo continua muito dependente dos semicondutores de Taiwan.

E na forma de trabalhar com a China?

Queremos trabalhar com a China e sem a China, com os que não querem trabalhar com Pequim. Temos de estar nos dois lados. A China é o nosso maior mercado desde a covid, à frente da Alemanha, que foi o nosso maior mercado durante mais de 130 anos. Vendemos lá €19 mil milhões, continuamos a investir lá e vemos o investimento chinês na Europa como uma oportunidade. Temos de fazer coisas para eles e não deixar que tragam os seus fornecedores para cá. Desde 2017, a Europa perdeu 25% da produção de automóveis, no top 10 das vendas na UE já há duas marcas chinesas e nos carros elétricos esse peso ainda é maior. A capacidade de produção da China é tremenda e nós queremos que os carros deles tenham produtos nossos. As marcas novas já têm maior percentagem de produtos Bosch.

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