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Hidrogénio branco na Grand Est: o poço de Pontpierre na Mosela e o projecto REGALOR II

Mulher jovem analisa amostra de solo com tablet e equipamentos de perfuração em ambiente rural ao pôr do sol.

Nas profundezas tranquilas da Mosela, uma série de perfurações pouco visíveis pode vir a redesenhar o tabuleiro energético europeu - e, por arrasto, mexer com o mercado global.

No leste de França, ganha força uma hipótese que prende a atenção de geólogos, decisores políticos e grandes grupos energéticos: sob o solo da região Grand Est poderá existir uma das maiores reservas de hidrogénio natural alguma vez identificadas, com potencial para alterar o equilíbrio da transição energética na Europa.

Da procura de metano a uma surpresa energética

O ponto de partida era outro. Em 2018, arrancou o projecto REGALOR na bacia carbonífera da Lorena, perto da fronteira alemã, com a missão de estimar o potencial de metano associado às antigas camadas de carvão.

Trabalhos anteriores do IFP Énergies nouvelles apontavam para 370 mil milhões de metros cúbicos de metano - o equivalente a vários anos de consumo de gás em França. A intenção era inequívoca: perceber se o legado mineiro da região poderia sustentar uma nova frente de exploração de gás fóssil.

No entanto, durante a campanha, as análises a fluidos subterrâneos trouxeram à superfície outro gás, em teores inesperados: hidrogénio. Não o hidrogénio “produzido” em instalações industriais, mas o chamado hidrogénio branco - gerado naturalmente em profundidade, sem recurso a combustíveis fósseis nem a electrólise.

O hidrogênio branco é uma forma primária de energia: já está pronto no subsolo, sem necessidade de uma indústria complexa para produzi-lo.

A partir daí, o rumo da investigação mudou. Em vez de se concentrar no gás de carvão, passou a ser plausível que a Lorena esconda um recurso de hidrogénio natural com impacto directo nos planos de descarbonização de França e da União Europeia.

Pontpierre, o poço que pode mudar a Grand Est

Para tirar o tema do domínio da hipótese, a equipa decidiu aprofundar - literalmente - a pesquisa. Em janeiro, começou o ensaio principal: o poço exploratório de Pontpierre, na Mosela, com o objectivo de atingir 4 mil metros de profundidade.

Esta nova etapa integra o REGALOR II, programa iniciado em 2025 e previsto até 2028. Ao contrário da primeira fase, ainda parcialmente centrada no metano, agora existe um foco exclusivo: caracterizar o hidrogénio natural com detalhe.

Como nasce o hidrogénio debaixo dos nossos pés

O laboratório GeoRessources, da Universidade de Lorraine, em colaboração com investigadores do CNRS e de outros institutos, procura responder a questões elementares, mas determinantes:

  • que reacções químicas estão na origem do hidrogénio no subsolo;
  • a que profundidades esse fenómeno é mais intenso;
  • que minerais entram no processo, com destaque para os ricos em ferro;
  • de que forma o gás se desloca até aos aquíferos profundos onde hoje é encontrado dissolvido.

Os geólogos descrevem o mecanismo como uma “cozinha subterrânea”. A água, o ferro, rochas reactivas e antigos depósitos de carvão funcionam como ingredientes; a temperatura, a pressão e a circulação de fluidos definem o resultado.

Cada amostra de rocha retirada no poço de Pontpierre e cada medição do gás dissolvido na água transforma-se em informação para alimentar modelos que deverão indicar se essa “cozinha” continua activa - e a que velocidade.

Medições que impressionam o meio científico

Os primeiros indícios recolhidos na Lorena já despertaram interesse. Em diferentes profundidades, as medições revelaram um crescimento rápido na concentração de hidrogénio:

  • por volta de 200 metros, valores próximos de 0,1% no gás recolhido;
  • entre 600 e 800 metros, subidas para algo entre 1% e 6%;
  • em torno de 1.100 metros, concentrações acima de 15%, um nível raro em contexto continental.

De acordo com simulações, a até 3 mil metros de profundidade as proporções poderiam ultrapassar 90% de hidrogénio - o que colocaria a bacia da Lorena entre as zonas mais ricas já estudadas para este tipo de recurso.

Estimativas falam em cerca de 46 milhões de toneladas de hidrogênio natural na região, valor comparável a mais de metade da produção anual mundial de hidrogênio cinza.

Caso estes valores sejam confirmados pelo poço de Pontpierre e por campanhas adicionais, França poderá passar de importadora preocupada de gás e petróleo a fornecedora estratégica de um gás limpo para a própria Europa.

Do laboratório ao mercado: quanto vale este potencial?

Actualmente, a produção mundial é dominada pelo chamado hidrogénio cinzento, obtido a partir de gás natural e associado a elevadas emissões de CO₂. Projecções de mercado sugerem que, só este segmento, poderá movimentar dezenas de mil milhões de euros por ano nas próximas décadas.

Em paralelo, cenários mais abrangentes apontam que o mercado total do hidrogénio - somando todas as “cores” e tecnologias - pode ultrapassar 190 mil milhões de euros por ano em 2037. Num quadro destes, ter uma reserva natural já formada em território europeu representa uma vantagem geopolítica relevante.

França vê ainda potenciais sinergias com infra-estruturas existentes e planeadas, como gasodutos adaptáveis ao hidrogénio, a exemplo do projecto mosaHYc na região. Se o gás extraído puder ser injectado nestes corredores, o Grand Est poderá assumir um papel central num futuro “corredor do hidrogénio” europeu.

Hidrogénio branco, verde, cinzento: quem é quem

Para perceber o alcance desta descoberta, é útil comparar os tipos de hidrogénio que dominam hoje o debate em políticas públicas e planos industriais:

Tipo de hidrogénio Origem / processo Emissões de CO₂ Estágio actual
Branco Gerado naturalmente no subsolo, muitas vezes dissolvido em aquíferos profundos Nulas durante a formação Fase de exploração
Verde Electrólise da água com energia renovável Baixas, ligadas a equipamentos e cadeia de abastecimento Escala ainda limitada
Cinzento Reforma a vapor do metano Altas emissões directas Domina a oferta actual
Azul Hidrogénio cinzento com captura e armazenamento de CO₂ Reduzidas, dependendo do índice real de captura Projectos-piloto

Enquanto o verde e o azul exigem grandes investimentos em unidades industriais, o branco abre uma lógica diferente: localizar e extrair uma energia que já se encontra disponível em profundidade.

Pressão climática, dinheiro público e cautela ambiental

O REGALOR II não decorre num vazio político. França comprometeu-se com a neutralidade carbónica até 2050, através da Estratégia Nacional Baixo Carbono. A União Europeia, por sua vez, intensifica as metas com o pacote Fit for 55, que aponta para uma redução de 55% das emissões face a 1990.

Neste enquadramento, o programa recebeu um orçamento de pouco mais de 13,3 milhões de euros, financiado pelo Fundo para a Transição Justa da UE e pela própria região Grand Est. Cerca de 8,7 milhões de euros chegam sob a forma de subsídios, incluindo verbas específicas para a Universidade de Lorraine e para investigação em ciências humanas e sociais.

Este detalhe é decisivo. A região ainda tem memória recente de conflitos associados ao gás de camada. Em 2025, o Conselho de Estado francês anulou uma licença de exploração de gás de carvão na zona, referindo um risco elevado para os recursos hídricos.

Qualquer tentativa de explorar o hidrogênio branco será julgada à luz dos erros passados, especialmente em relação à água subterrânea.

Por essa razão, uma componente central do REGALOR II passa por estudar cenários de extracção que protejam os aquíferos, evitem subsidência do terreno e reduzam o risco de fugas de gás. Foram também desenvolvidas novas sondas para medir e extrair gases dissolvidos a grandes profundidades, abrindo caminho a operações futuras com maior controlo.

Quem está por trás da corrida francesa

A coordenação industrial do projecto está nas mãos da La Française de l’Énergie. Do lado científico, a liderança cabe ao laboratório GeoRessources, com apoio do serviço geológico francês BRGM, da empresa de engenharia geotécnica SOLEXPERTS France e de equipas multidisciplinares que juntam geologia, físico-química, hidrologia e modelação.

A diversidade de competências espelha o desafio: não basta quantificar um recurso; é preciso compreender como o utilizar sem repetir a lógica de “extrair a qualquer custo” que marcou o século passado.

Riscos, apostas e o que pode vir depois

No cenário mais optimista, o poço de Pontpierre confirmará elevados teores de hidrogénio em profundidade, sustentará a estimativa de dezenas de milhões de toneladas e abrirá a porta a um projecto-piloto de produção controlada ainda antes de 2030.

Um cenário intermédio apontaria para volumes significativos, porém mais dispersos, exigindo tecnologia mais avançada para separar o hidrogénio da água e investimentos superiores em infra-estruturas. Já um desfecho negativo também é possível: a “cozinha subterrânea” poderá estar menos activa do que indicam as simulações, ou as formações geológicas poderão dificultar a extracção à escala economicamente viável.

Acrescem incertezas regulatórias. As agências ambientais francesas terão de definir parâmetros próprios para este tipo de exploração, que não encaixa de forma exacta nas regras tradicionais do petróleo e gás, nem nos modelos de energias renováveis à superfície.

Alguns conceitos a ter no radar

Para acompanhar os próximos capítulos na Mosela e no Grand Est, há termos que tenderão a surgir com frequência:

  • Aquífero profundo: formação rochosa que armazena água a grandes profundidades, com poros ou fracturas que permitem circulação de fluidos, incluindo gases dissolvidos.
  • Oxidorredução: conjunto de reacções químicas com transferência de electrões; no caso do hidrogénio, envolve minerais ricos em ferro a reagirem com água quente.
  • Hidrogénio branco: gás gerado naturalmente pela geologia, sem intervenção industrial, por vezes confundido com reservas de gás tradicional até ser analisado adequadamente.

Se França demonstrar que, sob o Grand Est, se encontra uma das maiores reservas de hidrogénio branco do planeta, a narrativa energética europeia ganhará um novo capítulo - e o subsolo aparentemente sereno da Mosela poderá tornar-se palco de disputas económicas, tecnológicas e políticas nos próximos anos.


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