Saltar para o conteúdo

Florida: onda de frio faz iguanas cair das árvores

Homem ajoelhado no relvado a segurar um iguana com outras iguanas e uma caixa azul ao lado.

Na Flórida, nos EUA, desenrola-se um enredo de inverno pouco habitual: em vez de praia de postal e palmeiras em modo de cartão‑de‑visita, surgem películas de gelo, noites cortantes - e iguanas imóveis no chão. Em grandes números, os répteis caem das árvores porque o organismo não consegue lidar com temperaturas mínimas históricas.

Frio histórico: o "Sunshine State" entra em modo de gelo

A Flórida é, por norma, sinónimo de calor. Muitas pessoas quase não aquecem as casas e há quem nem tenha um verdadeiro casaco de inverno. Precisamente por isso, o cenário atual soa tão extremo: uma massa de ar polar vinda do Canadá empurra os termómetros para valores que, segundo medições oficiais, não se viam há cerca de 35 anos.

Sobretudo a costa oeste, na zona de Tampa e St. Petersburg, tem registado recordes negativos. Em várias noites, as temperaturas aproximam-se dos 0 °C e, pontualmente, descem mesmo abaixo desse patamar. Para a realidade local, isto equivale a um choque meteorológico.

Em Florida, expectativas tropicais chocam com uma realidade ártica - desconfortável para as pessoas, mortal para as iguanas.

Um emigrante norueguês conta que, ao passear num jardim botânico, viu vários animais aparentemente sem vida junto ao caminho. Cerca de dez iguanas teriam caído diretamente de ramos altos para o chão. Relatos deste tipo multiplicam-se nas redes sociais, com muitos utilizadores a partilharem cenas semelhantes.

Como funcionam as iguanas: fãs de sol com um problema de temperatura

As iguanas-verdes são originárias de regiões tropicais da América Central e do Sul. Aí, as temperaturas diurnas ficam, regra geral, bem acima dos 20 °C - e o corpo destes animais está preparado para esse calor.

As iguanas são ectotérmicas (de “sangue frio”). Ou seja, ao contrário dos mamíferos, não regulam internamente a temperatura corporal: dependem quase por completo do ambiente. O intervalo em que se sentem melhor situa-se por volta dos 25 a 28 °C.

  • Zona ideal: cerca de 25–28 °C, quando os animais estão ativos.
  • Abaixo de aproximadamente 15 °C: metabolismo e movimentos abrandam de forma evidente.
  • Perto do ponto de congelação: a força muscular falha e o corpo fica rígido.

Quando a temperatura desce muito abaixo da faixa de conforto, os répteis entram num “modo câmara lenta”. A circulação abranda, a respiração e o batimento cardíaco diminuem, e a musculatura perde tensão.

Porque é que iguanas arrefecidas caem subitamente das árvores

Muitas iguanas passam a noite no alto dos ramos, onde se sentem mais protegidas de predadores. Porém, quando chega uma vaga de frio, esses locais de descanso transformam-se numa armadilha. Com o ar gelado, os animais vão ficando cada vez mais enrijecidos e perdem o controlo das patas. A certa altura, já não têm força suficiente para se manterem agarrados.

Os animais parecem mortos - mas, em muitos casos, estão numa espécie de sono de emergência, um estado de choque por frio.

Especialistas descrevem a situação como um estado de “choque térmico por frio”. O organismo entra em poupança máxima: a iguana fica deitada, imóvel, com pouca ou nenhuma reação. Sem contexto, o cenário parece dramático; muitas vezes, contudo, ainda há tempo para recuperar.

Hipóteses de salvamento: quando ainda é possível ajudar uma iguana

Protetores de animais e autoridades locais referem que, durante o atual período de frio, foram recolhidos centenas de exemplares. Alguns acabam por morrer congelados, mas muitos recuperam se forem aquecidos atempadamente.

Ainda assim, quem vive na zona - ou está de visita - e encontra uma iguana aparentemente sem vida deve agir com cuidado. Estes animais podem atingir dimensões consideráveis e têm garras fortes. Se despertarem de repente, podem defender-se, morder ou dar golpes.

As recomendações mais comuns no terreno incluem:

  • Não tocar diretamente no animal se não tiver experiência com répteis.
  • Se estiver numa estrada ou zona de circulação, tentar empurrá-lo à distância para um local seguro, sempre que possível.
  • Apenas voluntários treinados ou profissionais levam iguanas para aquecimento.
  • Em caso de trânsito intenso ou animais feridos, contactar as entidades locais de proteção animal.

O processo de aquecimento, em si, pode ser simples: muitas vezes basta uma temperatura ambiente a subir gradualmente ou uma fonte de calor suave. Pelo contrário, aquecedores muito quentes ou colocar um animal arrefecido ao sol direto podem provocar stress ou sobrecarregar o sistema circulatório.

Espécie invasora: porque a "redução pelo frio" quase não trava a população

Na Flórida, a iguana-verde não é considerada uma espécie nativa a proteger, mas sim uma espécie invasora. Terá chegado ao estado na década de 1960 através do comércio de animais; alguns indivíduos escaparam ou foram libertados e encontraram nos subúrbios quentes condições ideais.

Hoje, estão presentes em parques, canais, bairros residenciais e campos de golfe. Alimentam-se de plantas, escavam tocas e, assim, causam danos em infraestruturas e jardins. Há anos que vários municípios tentam conter a população.

Apesar do impacto do frio atual, especialistas não esperam uma quebra duradoura nos números. Observações de longa duração e dados meteorológicos antigos indicam que a espécie tem ultrapassado episódios de frio no passado. Depois de eventos extremos como o de 2010, as populações tendem a recuperar em poucos anos, assim que o tempo volta a aquecer e há alimento disponível.

A vaga de frio funciona como um corte severo, mas quase sempre temporário - não como uma solução definitiva contra a espécie invasora.

O frio como adversário natural - mas com efeito limitado

Para biólogos, o que se passa lembra um “mecanismo natural de controlo”. Quando o clima se mantém quente, espécies tropicais como a iguana-verde expandem-se cada vez mais. Invernos pontualmente rigorosos travam essa expansão e reduzem sobretudo os indivíduos mais frágeis.

No entanto, enquanto o número de noites muito frias for reduzido, uma grande parte da população atravessa estes períodos. Os exemplares mais resistentes acabam por se ajustar, procurar locais de dormida mais protegidos ou refugiar-se em microclimas mais quentes - por exemplo, em zonas urbanas que retêm mais calor residual.

O que mais muda com a vaga de frio

As massas de ar gelado não se fazem sentir apenas no sul. Até as célebres Cataratas do Niágara, no norte, aparecem parcialmente cobertas por gelo. Imagens mostram a água em queda a misturar-se com blocos gelados, transformando o local numa paisagem de inverno invulgar.

Na própria Flórida, as temperaturas baixas têm outras consequências:

  • Perdas de colheitas em frutos sensíveis como papaia ou manga.
  • Custos elevados de aquecimento para muitas famílias pouco preparadas para o frio.
  • Perturbações no turismo, com praias vazias e atividades canceladas.
  • Riscos de saúde para pessoas idosas em habitações com fraco isolamento.

Médicos alertam especialmente para o perigo de hipotermia entre pessoas em situação de sem-abrigo e quem vive em caravanas ou alojamentos improvisados. Para estes grupos, uma noite pouco acima do ponto de congelação pode ser muito mais perigosa do que para turistas bem instalados num hotel.

O que leigos devem saber sobre répteis em "choque por frio"

O termo choque por frio, em répteis, descreve um estado intermédio: o animal não está ativo como seria normal, mas também pode não estar morto. Quem encontra um exemplar imóvel consegue, muitas vezes, fazer uma avaliação básica sem lhe tocar.

Sinais de que ainda pode haver hipótese incluem movimentos respiratórios muito leves, pequenos espasmos ou olhos ligeiramente abertos. Já um corpo completamente rígido e com aspeto congestionado sugere mais provável morte. Em caso de dúvida, o melhor é manter distância e deixar a intervenção para pessoas com experiência.

A situação atual na Flórida mostra como fenómenos meteorológicos extremos podem interferir nos ecossistemas. Para muitos, o quadro parece quase surreal: palmeiras, areia, gelo - e, de repente, iguanas a cair das copas como se fossem frutos congelados. Para os animais, porém, trata-se de uma prova de sobrevivência que muitos só ultrapassam por pouco.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário