O arroz alimenta mais de metade do planeta. Em grande parte da Ásia, molda culturas, economias e rotinas diárias. No entanto, esta cultura ancestral enfrenta agora um cenário climático que nunca teve de suportar.
Um novo estudo da University of Florida cruza arqueologia, ciência do clima e dados actuais de produção agrícola para responder a uma pergunta directa: até que ponto o arroz consegue, de facto, tolerar o calor? A conclusão tem implicações pesadas para a segurança alimentar mundial.
O arroz não suporta calor extremo
O arroz tem uma história longa. É cultivado por agricultores há, pelo menos, 7.000 anos e espalhou-se por ambientes climáticos muito diferentes. Ainda assim, apesar dessa expansão geográfica, a sua tolerância ao calor manteve-se, de forma surpreendente, praticamente constante.
De acordo com o estudo, o arroz raramente prospera quando a temperatura média anual ultrapassa cerca de 28°C (82°F). No período de crescimento, os problemas começam quando as temperaturas excedem 33°C (91°F).
A partir daí, as colheitas caem à medida que a viabilidade do pólen diminui. Sob calor extremo, próximo de 40°C (104°F), a planta tem dificuldades até para sobreviver.
Calor a mais destrói a produção de arroz
Estes limites não resultam apenas de experiências de curto prazo. Surgem de forma consistente em dados de agricultura moderna, em observações por satélite e também em estudos de fisiologia vegetal.
“Não se vê esse tipo de flexibilidade no extremo quente porque, a partir de certo ponto, a planta deixa fisicamente de funcionar”, afirmou Nicolas Gauthier, autor principal do estudo.
O arroz nunca se adaptou ao calor
Para perceber se, no passado, o arroz se adaptou a temperaturas mais elevadas, os investigadores recorreram à arqueologia. Analisaram mais de 800 sítios antigos espalhados pela Ásia, abrangendo quase 9.000 anos de cultivo de arroz.
A conclusão é marcante. Mesmo durante períodos mais quentes da história da Terra, o arroz nunca se deslocou para climas mais quentes para lá dos limites já conhecidos.
Em vez disso, quando o ambiente mudou, o arroz alterou a sua distribuição. Deslocou-se para zonas mais frescas ou surgiram variedades ajustadas a temperaturas mais baixas.
Por exemplo, o arroz expandiu-se para norte, entrando na China, na Coreia e no Japão, à medida que se desenvolveram tipos adaptados ao frio. Já a ocupação de regiões mais quentes não implicou novas adaptações.
Os agricultores limitaram-se a recorrer a variedades já tolerantes ao calor - e mesmo essas permaneceram dentro do mesmo intervalo máximo de temperaturas.
As temperaturas futuras vão ultrapassar os limites
Essa fronteira estável enfrenta agora um teste sério. As projecções climáticas indicam que grandes áreas da Ásia irão, em breve, exceder estes limites mantidos durante milénios.
Até ao final deste século, as zonas acima do limiar de 28°C (82°F) poderão aumentar entre dez e trinta vezes em países com grande produção de arroz.
O aquecimento espalha-se pela Ásia
Os mapas apresentados no estudo apontam para um aquecimento generalizado no Sul e no Sudeste Asiático. As regiões que hoje produzem a maior parte do arroz mundial deverão enfrentar condições sem paralelo histórico.
Não se trata de uma mudança lenta dentro de margens já conhecidas. É uma passagem para um território térmico completamente novo.
“Estas mudanças vão ser disruptivas, e o processo de adaptação não é gratuito. Tem de ser feito com intenção e pode não ser agradável”, disse Gauthier.
O arroz pode ter dificuldade em adaptar-se
O estudo indica que esta adaptação será difícil. A análise genética sugere que muitas variedades de arroz actualmente existentes poderão ficar mal ajustadas aos climas futuros.
Espera-se que o desajuste entre as características actuais e as condições futuras se torne mais intenso em cenários de emissões mais elevadas.
Há algumas opções de adaptação. Os agricultores podem alterar datas de sementeira ou avançar para variedades mais resistentes ao calor. Os cientistas podem recorrer à diversidade de estirpes tradicionais para criar culturas mais robustas.
Mas estas respostas têm limites. O arroz é sensível não só ao calor diurno, como também a noites quentes. Além disso, depende de solos específicos, sistemas de água e práticas agrícolas construídas ao longo de séculos.
Agricultores em regiões quentes estão em risco
“As regiões do sul, como a Indonésia e a Malásia, são as que vão ser mais afectadas, e o processo de adaptação vai deixar muita gente de fora”, acrescentou Gauthier.
“Quem hoje depende do arroz para subsistir não é necessariamente quem vai conseguir aceder às novas variedades genéticas que forem desenvolvidas.”
Transferir a produção de arroz para áreas mais frescas poderá ajudar em alguns locais. No entanto, essa deslocação não consegue substituir a produção perdida em regiões tropicais densamente povoadas, onde milhares de milhões dependem do arroz para alimentação e rendimento.
O abastecimento alimentar enfrenta uma ameaça séria
As consequências vão muito além do sector agrícola. Actualmente, milhares de milhões de pessoas vivem em regiões que poderão, em breve, ultrapassar os limites térmicos do arroz.
Se a produtividade cair, os efeitos irão propagar-se por sistemas alimentares, economias e culturas. O arroz não é apenas uma cultura. Está no centro das dietas, das tradições e dos meios de subsistência em toda a Ásia.
Necessidade urgente de acção global
O estudo traça um quadro claro. Durante milhares de anos, o arroz manteve-se dentro de uma janela térmica estreita. Agora, as alterações climáticas estão a empurrá-lo para lá desse limite a uma velocidade muito superior à da adaptação natural.
“Numa escala agregada, pode acontecer que, quilo por quilo, todo o arroz que deixar de conseguir crescer no Sudeste Asiático possa ser cultivado na China”, afirmou Gauthier.
“Mas isso não muda o impacto nas pessoas do Sudeste Asiático, que não podem simplesmente começar a cultivar uma nova cultura a partir do zero.”
O que acontecer a seguir dependerá de quão depressa a ciência, as políticas e as práticas agrícolas conseguirem responder. O desafio não é apenas produzir arroz num mundo mais quente, mas sustentar as sociedades que dele dependem.
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