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Porque a quietude provoca inquietação e como encontrar-se consigo mesmo

Homem sentado no chão da sala a olhar pensativo para um telemóvel, junto a uma mesa com bebida e cadernos.

Na primeira vez que reparei nisto, estava sentado no sofá e tinha o telemóvel noutra divisão. Sem televisão, sem podcast, sem lista de reprodução a tocar em pano de fundo. Só eu e o zumbido discreto do frigorífico. Em menos de trinta segundos, a minha perna começou a saltitar. A cabeça começou a despejar coisas: a lista do supermercado, o e-mail embaraçoso da semana passada, uma memória da adolescência que eu não visitava há anos. O silêncio não era neutro. Parecia quase hostil, como se as paredes se aproximassem a cada segundo. Estiquei a mão para ir buscar o telemóvel e, a meio do gesto, parei.

Porque é que era tão difícil ficar ali, simplesmente, sem fazer nada? Porque é que a imobilidade se parecia menos com descanso e mais com entrar numa sala onde me espera alguém que evito há anos? Percebi que o incómodo não era do silêncio. Era de me encontrar comigo.

A ansiedade escondida por trás de “não consigo estar quieto”

Há uma confissão moderna que muita gente solta com um riso nervoso: “Sou péssimo a não fazer nada.” À superfície, soa a orgulho de produtividade. Por baixo, costuma haver algo mais cru. Quando paramos, ficam à vista as defesas de que mais gostamos: nada de separadores abertos, nada de notificações, nada de tarefas para disfarçar de propósito.

O que sobra são os pensamentos que fomos adiando, as perguntas que fomos evitando, as emoções que fomos silenciando com scroll e multitasking. Em psicologia, isto é muitas vezes descrito como evitamento experiencial - o esforço discreto e constante para não sentir o que se sente. E o corpo denuncia: mexe-se, inquieta-se. Os dedos “pedem” um ecrã. A mente insiste que devíamos estar a fazer alguma coisa - qualquer coisa - desde que não seja ficar aqui, connosco.

Imagina um domingo à tarde. As tarefas estão feitas, as crianças saíram, a casa está invulgarmente calma. A Laura, 36 anos, deita-se na cama “só para descansar os olhos”. Dois minutos depois, levanta-se outra vez. Passa um pano numa bancada que já estava limpa. Vai ver se a máquina de lavar… continua desligada. Abre o Instagram, fecha, e volta a abrir sem pensar. Quando, por fim, abranda, sente o peito apertar. A cabeça lança imagens: a recente ida do pai ao hospital, o projecto em atraso, a conversa com o parceiro que anda a adiar.

O tempo de descanso transforma-se num ataque surpresa mental. E então ela faz o que tantos de nós fazemos: põe um podcast em velocidade dupla e chama-lhe “ruído de fundo”. Qualquer coisa serve para abafar a onda que está a subir.

Do ponto de vista psicológico, a quietude retira aquilo a que alguns terapeutas chamam “reguladores externos” - reuniões, distrações e tarefas que nos mantêm a sensação de estar minimamente “no lugar”. Quando isso desaparece, o mundo interno avança. Luto por resolver, ansiedade de baixa intensidade, vergonha, a sensação de que não estamos exactamente a viver a vida que queremos. O desconforto no silêncio não é prova de que há algo de errado contigo. Muitas vezes, é sinal de que há algo em ti a pedir para ser ouvido.

A mente não gosta de assuntos pendentes. Por isso, quando não está a acontecer mais nada, puxa esses assuntos para a primeira fila. Por fora, parece inquietação. Por dentro, é o confronto consigo mesmo a bater à porta.

Aprender a “encontrar-se consigo” sem fugir

Uma forma simples de começar a mudar a relação com a imobilidade é reduzir a fasquia. Não precisas de vinte minutos de meditação profunda. Começa com dois minutos de pausa intencional. Põe um temporizador, senta-te ou deita-te e, de propósito, não faças absolutamente nada.

Sem técnica de respiração. Sem sermão interno sobre “estar presente”. Apenas repara no que surge. Uma lembrança. Tensão no maxilar. Uma frase como “isto é inútil, levanta-te”. Trata cada coisa como um visitante, não como uma ameaça. Dá-lhe um nome em silêncio: “preocupação”, “tédio”, “tristeza”, “vontade de ir ao telemóvel”. E deixa que esteja ali, sem responder logo com acção.

Estes dois minutos não são para “resolver” nada. São para mostrar ao teu sistema nervoso que consegues ficar. Que não explodes quando paras.

A maioria das pessoas tenta uma vez, sente-se desconfortável e conclui: “Isto não é para mim.” Interpreta o incómodo como falhanço, ou como prova de que “não tem jeito” para trabalho interior. É aqui que acontece uma espécie de dano suave. O desconforto é o treino - não é um sinal de que estás a fazer mal.

Pensa nisso como dor muscular emocional. Se forçares demasiado, desistes. Se fizeres tão pouco que nem conta, nada muda. Por isso, brinca com doses pequenas: dois minutos esta semana, três minutos na próxima. Dia sim, dia não. Salta dias. Sejamos honestos: quase ninguém faz isto todos os dias sem falhar. O objectivo é tornar a quietude algo que o corpo reconhece como sobrevivível, não um castigo que se teme.

Como um terapeuta me disse: “A imobilidade não é sobre esvaziar a mente. É sobre ter um pouco menos medo do que já está dentro dela.” Essa mudança altera tudo. De repente, a sala silenciosa deixa de ser inimiga. Passa a ser um espelho.

  • Começa com pausas muito curtas em vez de sessões longas.
  • Repara no que sentes e dá-lhe um nome, sem julgar.
  • Permite o desconforto sem te distraíres imediatamente.
  • Pára quando o exercício ainda te parece gerível.
  • Regressa à actividade normal com suavidade, não com pressa, culpa ou pressão.

O que o teu incómodo com a quietude pode estar a tentar dizer

Quando dizes “sinto-me inquieto na quietude”, pode ser que estejas, na verdade, a dizer: “Há partes da minha vida para as quais eu não quero olhar.” Pode ser stress crónico que normalizaste. Uma relação que só funciona se estiveres sempre ocupado. Um percurso profissional que impressiona por fora, mas sabe a vazio por dentro.

A mente percebe que parar dá espaço a estas verdades para falarem e resiste com todo o tipo de truques. De repente, a loiça torna-se urgente. As notificações parecem emergências. Dizes a ti mesmo que “não és bom a relaxar”. Por trás dos rótulos, muitas vezes há uma história mais silenciosa: algo em ti está cansado de ser ignorado. E usa o desconforto como despertador.

A psicologia não lê isto como fraqueza; lê como protecção. Evitar a imobilidade pode ter sido uma estratégia antiga de sobrevivência. Talvez, em criança, tenhas aprendido que o silêncio em casa significava tensão. Ou que abrandar te deixava vulnerável a emoções grandes, sem ninguém para ajudar. Manteres-te em movimento tornou-se um escudo.

Na vida adulta, esse escudo continua a funcionar muito depois de a ameaça original ter desaparecido. Podes ficar nervoso nas férias, ou estranhamente em pânico numa noite calma. O corpo não está “confuso”. Está a ser fiel ao que te manteve seguro. O trabalho agora não é envergonhares-te por isto. É ensinar ao teu sistema que a quietude de hoje não é o perigo que já foi.

Há uma frase simples no centro de tudo: não dá para adormecer só algumas emoções. Quando usas ruído e actividade para amortecer tristeza ou medo, também embacias a alegria e a clareza. A quietude não vai, por magia, arrumar a tua vida, nem te vai transformar num monge zen que nunca pega no telemóvel na cama.

O que pode fazer é reabrir o canal. Começas a reparar no que te dá energia de verdade - em vez do que apenas distrai. Ouves o pensamento pequeno e persistente que diz “estás exausto”, ou “tens saudades de pintar”, ou “ficas neste trabalho por medo, não por realização”. Essa informação é confusa. E também é ouro. O confronto consigo próprio raramente é confortável, mas quase sempre é honesto.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O desconforto na quietude é comum Ligado ao evitamento experiencial e a emoções por resolver Normaliza a sensação e reduz a vergonha
Começar com doses mínimas de silêncio Dois a três minutos de pausa intencional sem objectivo Torna o confronto consigo próprio mais seguro e possível
A inquietação é informação, não falhanço Sinaliza áreas da vida ou sentimentos que precisam de atenção Transforma o desconforto num guia para mudança pessoal

Perguntas frequentes:

  • Porque é que fico ansioso quando tento relaxar? O teu sistema nervoso está habituado a estar em modo de alerta, por isso abrandar pode parecer estranho e inseguro. Muitas vezes, parar cria espaço para pensamentos e emoções que tens mantido à distância, o que pode acender ansiedade no início.
  • Isto quer dizer que há algo de errado comigo a nível psicológico? Não necessariamente. Muitas pessoas mentalmente saudáveis têm dificuldade com a quietude num mundo hiperconectado. A diferença está em conseguires ficar curioso em relação ao desconforto, em vez de fugires dele.
  • A meditação é a única solução? Não. Caminhadas silenciosas, duches lentos sem telemóvel, sentar num banco a observar as pessoas, ou simplesmente deitar-te no chão durante dois minutos podem ser formas de confronto consigo próprio, feitas com gentileza.
  • E se a quietude despertar emoções muito intensas? Se o que surge for avassalador, é um sinal para procurares apoio de um terapeuta ou conselheiro. Não tens de fazer trabalho interior profundo sozinho, e dosear o processo também é cuidado.
  • Quanto tempo demora até a quietude ficar mais fácil? Não existe um prazo universal. Muita gente nota pequenas mudanças ao fim de algumas semanas de pausas curtas e regulares. O objectivo não é uma calma perfeita, mas sentires um pouco menos medo de estar a sós com a tua própria mente.

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