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Pompéia: um graffiti antigo revela uma história de amor

Mulher a restaurar mural com corações vermelhos numa parede antiga em sítio arqueológico.

Num corredor sombreado entre os teatros antigos de Pompeia, uma mensagem esquecida voltou a ver-se na parede quase 2.000 anos depois.

Nas escavações da cidade, investigadores identificaram um novo conjunto de graffiti antigos, entre os quais um fragmento de declaração amorosa gravado por uma mão romana pouco antes de Pompeia ser soterrada pelo Monte Vesúvio em 79 d.C.

Amor escrito na parede de uma cidade condenada (Pompeia e Erato)

A inscrição é breve, quase tímida. Em latim, diz: “Erato amat…” - “Erato ama…”. O resto perdeu-se, apagado pela erosão e por séculos de esquecimento.

A equipa de arqueologia em colaboração com o Parque Arqueológico de Pompeia comunicou que o graffito surgiu num corredor do complexo teatral, na passagem que liga à antiga Rua de Estábia, uma zona que em tempos enchia de gente a caminho de peças e espectáculos.

As palavras “Erato ama…” ficaram suspensas no tempo, mesmo antes de cinzas e pedras do Vesúvio enterrarem a cidade.

Não se sabe quem era Erato. O nome pode ter pertencido a uma mulher, a um homem, ou até ser uma alcunha. Também não ficou registado quem era a pessoa amada: no lugar onde estaria outro nome, restou apenas um vazio sugestivo, gravado num reboco que entretanto desapareceu.

Para quem estuda o passado, aquilo que falta tem quase tanta força como o que sobreviveu. Esse meio enunciado aponta para uma história íntima interrompida pela catástrofe - um eco do destino da própria cidade.

Graffiti: as “redes sociais” da Pompeia antiga

As paredes de Pompeia estiveram, em tempos, cobertas de mensagens. Bilhetes amorosos, palavras de ordem políticas, piadas obscenas, desenhos de navios e de gladiadores - tudo o que um transeunte com um objeto pontiagudo e algum tempo conseguisse riscar.

Quando o Vesúvio entrou em erupção em 79 d.C., cinzas e detritos selaram a cidade em poucos minutos. Casas, tabernas, termas e teatros ficaram soterrados, mas também os sinais do quotidiano: um nome à entrada de uma porta, um comentário indecoroso junto a um bar, o esboço rápido de um gladiador preferido.

Ao contrário dos textos oficiais dedicados a imperadores e senadores, estes graffiti guardam as vozes de pessoas que raramente aparecem na história escrita.

O que as paredes revelam sobre a vida do dia a dia

Os graffiti de Pompeia mostram do que as pessoas se riam, quem amavam e por que gladiadores torciam. Há inscrições carinhosas, outras agressivas e muitas irreverentes. Entre exemplos já conhecidos contam-se frases como:

  • “Estou com pressa; cuida de ti, minha Sava, e não te esqueças de me amar!”
  • “Methe, escrava de Comínia de Atela, ama Cresto no seu coração. Que a Vénus de Pompeia seja favorável a ambos e que vivam sempre em harmonia.”

Lidas hoje, estas linhas soam a mensagens privadas expostas em espaço público. E recordam aos investigadores que o afeto, o ciúme e a saudade eram tão comuns nas ruas romanas como em qualquer cidade moderna.

O projeto “Bruits de couloir”: voltar a ouvir as vozes antigas

O recém-revelado “Erato amat…” integra um esforço de investigação com um título igualmente sugestivo: “Bruits de couloir” - literalmente, “ruído de corredor”. O trabalho é conduzido por uma equipa da Universidade Sorbonne e da Universidade do Quebeque em Montreal, em colaboração com o Parque Arqueológico de Pompeia.

O foco foi o bairro dos teatros, onde o público entrava e saía por passagens compridas. Esses espaços estreitos parecem ter incentivado as pessoas a deixar marcas nas paredes enquanto esperavam.

Elemento do projeto Detalhes
Localização Zona dos corredores do teatro, perto da Rua de Estábia
Campanhas Duas principais temporadas de trabalho de campo, 2022 e 2025
Número de graffiti mapeados Perto de 200 inscrições e desenhos individuais
Novos graffiti identificados 79 textos ou fragmentos antes desconhecidos

Muitas destas inscrições passavam despercebidas numa visita normal. Linhas esbatidas, riscos finíssimos e letras quase apagadas só se tornaram detetáveis com recurso a técnicas avançadas de imagem.

Imagem 3D: letras esbatidas voltam a ganhar forma

Para analisar as paredes ao detalhe, a equipa combinou várias ferramentas digitais. Em vez de depender apenas do que se vê a olho nu, recorreu a:

  • Fotogrametria - milhares de fotografias sobrepostas, reunidas para criar um modelo 3D rigoroso das paredes dos corredores.
  • RTI (Reflectance Transformation Imaging) - técnica que altera a direção da iluminação virtual sobre a superfície, realçando riscos quase invisíveis.
  • Traçado digital de inscrições - desenho manual e semi-automático sobre as superfícies digitalizadas para isolar letras e símbolos.

Ao deslocar a luz sobre a parede digital, sulcos quase impercetíveis aparecem de repente, transformando riscos aleatórios em palavras legíveis.

Este conjunto de métodos permitiu aos especialistas “ler” superfícies que, para os visitantes, parecem lisas e vazias. A expressão “Erato amat…” só surgiu depois de ajustar digitalmente o ângulo de luz e o contraste, e foi depois confirmada no local por epigrafistas.

Além disso, trata-se de um procedimento não destrutivo. Em vez de raspar ou voltar a talhar a pedra, os investigadores trabalham com cópias virtuais que podem ser revistas repetidamente à medida que as técnicas evoluem.

Porque é que uma frase amorosa tão curta interessa aos historiadores

À primeira vista, pode parecer estranho dar tanta atenção a uma frase incompleta. Mas, para quem estuda a sociedade antiga, uma linha como “Erato ama…” tem vários tipos de interesse.

  • Confirma a popularidade de certos nomes e formas de expressão pessoal naquela zona da cidade.
  • Sugere algo sobre níveis de literacia entre pessoas comuns, incluindo mulheres, escravos e libertos.
  • Fixa a vida emocional - amor, desejo, talvez até desgosto - num lugar e num momento concretos.

Muitas vezes, os graffiti preenchem lacunas deixadas por textos literários produzidos pelas elites. Os cronistas romanos tendiam a registar guerras, política e escândalos de gente influente, não quem estava apaixonado por quem num corredor de teatro.

Ler emoção através de textos danificados

Quando só resta parte de uma inscrição, os investigadores recorrem ao contexto e a paralelos de outros locais. O verbo “amat” é uma escolha frequente em mensagens amorosas. Frases semelhantes, encontradas em paredes diferentes, ajudam a reconstituir padrões da linguagem do quotidiano.

Os epigrafistas comparam o estilo de escrita, a forma das letras e erros ortográficos para estimar quem poderá ter gravado a frase: um falante nativo de latim, alguém ainda a aprender a língua, ou um escriba habituado a registos formais. O carácter espontâneo do graffito de Erato aponta para uma mão comum, e não para um profissional.

De cinzas a algoritmos: como a tecnologia está a mudar a arqueologia

O projeto de graffiti em Pompeia exemplifica uma transformação mais ampla na arqueologia. As ferramentas digitais não substituem a escavação tradicional; ampliam aquilo que um sítio pode revelar depois de a terra já ter sido removida.

A visualização em 3D permite regressar a uma parede anos mais tarde sem deslocar uma única pedra. Os conjuntos de dados podem ser partilhados à escala global, tornando possível que especialistas de língua, geologia ou ciência computacional trabalhem em conjunto sobre as mesmas superfícies.

O mesmo corredor que antes ecoava com multidões a caminho do teatro vive agora uma segunda vida como um modelo digital de alta resolução nos ecrãs dos investigadores.

À medida que a imagem melhora, escavações antigas tornam-se novamente atuais. Paredes fotografadas há décadas podem ser reanalisadas com técnicas mais recentes, por vezes revelando textos que ninguém suspeitava existir.

Como os visitantes podem ler graffiti antigos no local

Para quem planeia visitar Pompeia, estas descobertas podem alterar a forma de percorrer as ruínas.

  • Observe com atenção as paredes rebocadas perto de teatros, tabernas e esquinas, e não apenas os grandes monumentos.
  • Procure incisões ténues, não só imagens pintadas; muitos graffiti são cortes pouco profundos na superfície.
  • Se possível, use luz lateral - até a luz de um telemóvel, segurado em ângulo, pode fazer sobressair riscos.

Alguns graffiti já estão documentados com painéis ou guias preparados pelo parque arqueológico. Mesmo que não seja possível ver todas as inscrições agora identificadas, saber que existem ajuda a desviar o olhar das estátuas imponentes para vestígios pequenos e pessoais.

Termos-chave por detrás da história de amor de Pompeia

Por trás desta descoberta aparentemente simples há várias expressões técnicas. Compreendê-las ajuda a interpretar notícias futuras sobre projetos semelhantes.

  • Graffito: em arqueologia, singular de “graffiti”, ou seja, uma inscrição ou desenho isolado riscado ou escrito numa superfície.
  • Epigrafia: estudo especializado das inscrições, incluindo a leitura de textos danificados e a sua datação.
  • Imagem RTI: método fotográfico que regista como a luz se reflete em micro-relevos da superfície e permite “reiluminar” a imagem de forma virtual.

Quando os relatórios referem que 79 novos graffiti foram “identificados”, isso nem sempre significa que apareçam com nitidez. Muitas vezes tratam-se de fragmentos de letras, pequenas curvas ou ângulos que, combinados, passam a constituir parte de uma palavra. O processo exige avaliação cuidadosa, e não uma leitura automática.

O que este tipo de achado aponta para a investigação futura

É provável que a inscrição de Erato não seja a última mensagem íntima escondida no reboco de Pompeia. A cidade ainda tem áreas que nunca foram estudadas a fundo com imagem avançada. À medida que existam recursos e tecnologia, mais corredores, paredes de casas e até tetos poderão ser digitalizados.

Um cenário plausível é conseguir separar digitalmente mensagens sobrepostas de décadas diferentes. Isso permitiria reconstituir como as pessoas reutilizavam as mesmas paredes, transformando-as em quadros de avisos em constante mudança muito antes da erupção.

Cada nova linha, mesmo fragmentária, acrescenta um fio à teia social da cidade. No conjunto, mostram que Pompeia não foi apenas um cenário de desastre congelado no tempo, mas um lugar ruidoso e vivo, onde amor, mexericos e humor ficavam literalmente escritos nas paredes.

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